
Quando a solidão gelava seu corpo, ela se sentia confortada. Acompanhada, protegida.
Não; desabrigada, desgarrada, desamparada.
Vinho tinto ou champanhe? Não tinha o que comemorar. Vinho tinto.
Mas... e a solidão, não é comemorável? Adorável?
Lamentável.
Desesperante, quase desprezível. O que ela sentia; não a solidão. Ou o que ela não sentia. Não se sabe, nem se ouve... fale de seus olhos cinzentos!
De dias nublados, ou de brumas que abrem caminho para Avalon?
De delírios entorpecentes, que procuram por quem a pertence,
entrementes?

Se pareço estranha, pálida, quase decadente... Há resposta em meus olhos. Olhos de angústia, desespero, descrença. Olhos que vagam querendo ser cegos, por verem além.
Além dos braços abertos de frente pro mar, dos vidros fechados e surdos. Além da vida de alguns, e perto da morte de outros.
Se pareço vazia, é porque tenho medo de sentir algo que me deixe bem, e de repente ser egoísta.
Pelos ventres doentes, pelos rostos salgados. Pelos dias que só são quentes quando queimam.
Se pareço sonolenta, deixe-me adormecer até o pôr-do-sol. Quando tudo é inevitavelmente escuro, confortante.
Como o silencio que me faz fingir indiferença, como o deserto que me faz ouvir a voz de Deus.
Pra quem peço que desate os nós de meus pulsos, que sussurrei ao diabo que os fizesse tão fortes quanto as palavras de quem provocou minha mudez.
* o título é Chico Buarque, Construção. Chocante.